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 O DESPERTAR PSÍQUICO DO OUTONO DA VIDA

23/3/2010

 

Embora a natureza esteja sempre pronta em sua espontaneidade a florescer e renovar-se a cada primavera, paradoxalmente, a alma humana, via de regra cumpre despertar psiquicamente em sua singular condição de outono, desde que diligentemente se dedique à tarefa de colher experiências suficientes ao longo do caminho probatório da existência, capazes de levá-la, passo a passo, ao luminoso altar da maturidade anímica.

Em concordância, observo na prática da psicoterapia, inúmeros casos daqueles que, preocupados em lidar com suas angústias indefinidas, ao atingirem os limiares da idade serena, atestam haver repentinamente percebido um fundamento maior para suas vidas, ou ter encontrado o veio da genuína missão a ser cumprida, até então oculta aos olhos imaturos, não treinados a ver por detrás das aparências.

Dura verdade, tais percepções, potencialmente arrebatadoras, próprias de um estado anímico que podemos adequadamente nomear de “iluminação cósmica”, costumam vir à tona quando menos por elas esperamos e ao longo de processos de intenso sofrimento psicológico, deflagradores de mudanças radicais no modo de pensar e de entender as coisas, capazes de reformular intrinsecamente a relação que guardamos com a vida.      

Incontáveis são os relatos e as instigantes biografias daqueles que, em algum momento de suas vidas (comumente por volta dos 40 anos) registram a ocorrência deste fenômeno psíquico que bem se traduz pelo desabrochar da alma para percepções absolutamente incomuns, próprias de um plano superlativo de manifestações, sutil em relação a este mundo em que vivemos, a evidenciar uma realidade supra-sensível, da qual podemos apenas ter idéia quando atingimos oitavas vibratórias psiquicamente transcendentes.

Mestres avatares do Oriente e do Ocidente, líderes religiosos, monges, filósofos, poetas, músicos, artistas, personalidades expoentes da natureza humana e, sobretudo, pessoas absolutamente anônimas e comuns, constituem incontestes provas de que o estado de iluminação cósmica é passível a qualquer um de nós, desde que saibamos manter psiquicamente abertos os canais ao cultivo da espiritualidade.

Indiscutivelmente, os dois casos de iluminação cósmica mais reconhecidos em toda a história da humanidade são os de Gautama Buda e o de Jesus. Conta-se que Gautama, século VI a.C., após o nascimento de seu primeiro filho, surpreendentemente abandonou o abastado lar em que vivia para dedicar-se à prática do ascetismo. Teria sido por volta dos 35 anos que Buda, sentado sob a árvore Bo, após sofrer seis longos anos de terríveis provações, atingiu a paz absoluta e desvendou o segredo do nirvana.

Jesus, a História busca corrigir as imprecisões cronológicas dos Evangelhos, crucificado por volta de seus 40 anos, teria seus 36 ou 38 anos quando começou a pregar. Dentre as várias passagens que podem ser apontadas como momentos de iluminação cósmica do messias, sua experiência de transfiguração, entretanto, testemunhada pelos três textos sinópticos, é inequívoco prenúncio de que Jesus ali ultrapassara o ponto extremo da condição humana, a ocorrer-lhe, portanto, em pleno vigor de sua idade madura. Em Mateus, 17, 2, por exemplo, encontramos a estranha descrição: “E se transfigurou diante deles: o seu rosto brilhou como o Sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz.”

Sócrates, em seus 40 anos, é Platão quem nos conta em seu Symposium, à época do cerco de Potidéia (432-429 a.C.), estivera desde o meio-dia e daí até a manhã seguinte em estado catatônico, em profunda absorção, mas com os olhos bem abertos, refletindo sobre algo.  Ao raiar do Sol, sem sequer notar que à sua volta muitos haviam se colocado a fim de observá-lo, levantou-se serenamente, rendeu graças ao novo dia e seguiu silencioso o seu caminho. Um sugestivo quadro de um momento sublime, de iluminação pessoal, daquele que em toda sua vida primou pela ética e pela justiça em pensamentos e atitudes.

Citemos também o sábio Plotino (204-274 d.C.), inspirado renovador da cosmogonia de Platão, que, em uma de suas cartas, endereçada a Flaccus, explica ao amigo que o conhecimento tem três graus: opinião, ciência e iluminação; e afirma não somente já ter vivido sete episódios de iluminação (os quatro últimos entre seus 59 e 64 anos), como nos aconselha quanto aos caminhos a serem seguidos para que a alma se liberte.

Jacob Boehme (1575-1624), sapateiro filósofo, descreve-nos duas iluminações distintas que lhe teriam ocorrido. A primeira deu-se aos 25 anos, na região campestre de Görlitz, quando se viu “rodeado por uma luz divina e tomado pelo conhecimento celestial.” Guardando completo silêncio acerca de sua visão, e intimamente tocado por ela, anos depois escreveria De Signatura Rerum, expondo sua particular compreensão da Criação por meio de todas as linhas, figuras e formas de Deus. Dez anos mais tarde, sofreria nova experiência de conexão com o Todo absoluto, segundo ele, uma visão mais forte que a primeira: abriu-se para mim um largo portão e em ¼ de hora vi e aprendi mais do que o faria se cursasse muitos anos de universidade; (…) porque vi o abismo dos abismos, o Ser de todos os seres e a geração eterna da Santíssima Trindade, o fim e a origem do mundo e de todas as criaturas.   

Também notável é o arrebatamento de Descartes (1596-1650), que se viu atravessado na noite de 10 de novembro de 1619 por três sonhos sucessivos cujas imagens lhe pareceram “símbolos da iluminação”, a indicar-lhe a missão à qual deveria consagrar a própria vida: reunir todos os conhecimentos sobre bases seguras e edificar a partir delas um pensamento plenamente iluminado pela verdade. Cumprindo seu propósito, o filósofo desenvolveria a partir desse seu entendimento suas Regras para a Direção do Espírito, publicadas em 1628.      

Semelhantes experiências místicas foram as de Blaise Pascal (1623-1662) e de Baruch Spinoza (1632-1677), filósofos cujas obras trazem pensamentos ou descrições próprias de quem se deixou alçar pelo êxtase religioso. Spinoza trata da iluminação como se esta fosse um segundo nascimento, advindo daí a união da alma com Deus, e expressa que nisso consiste a imortalidade e a liberdade do homem. Já Pascal, aos 31 anos, precisamente em 23 de novembro de 1654, teria sofrido seu radical processo de conexão divina, em função do que abandonou o convívio mundano para assumir uma vida monástica devotada a oração e a filosofia, que o levou a escrever suas Cartas Provinciais (1656) e também seus Pensamentos, estes, publicados postumamente, em 1670. A data de sua iluminação foi por ele registrada numa espécie de talismã, forjado em caligrafia própria sobre um pergaminho, mantido por toda a vida secretamente encerrado sob as costuras de seu gibão. Descoberto dias após sua morte por um noviço de seu mosteiro, foi entregue à sua irmã, Mme. Périer. Cópia do texto (que traz um estranho desenho: uma cruz da qual emanam 16 raios de luz) encontra-se guardada na Biblioteca Nacional de Paris. Nele Pascal se refere a uma visão que lhe ocorreu entre 22h30min e meia-noite e meia, em presença do fogo, e para retratá-la vale-se de expressões como “a sublimidade da alma humana”, “reconciliação total e doce com Deus”, afirmando ter “ganhado a vida eterna por conhecê-Lo.”

Outro grande nome a ser lembrado é Dante Alighieri (1265-1321), autor de Vita Nuova (1309) e Divina Comédia (1321).  Ao final da primeira obra, editada aos seus 44 anos, Dante faz alusão à iluminação cósmica. Sua Divina Comédia, ambientada em 1300, narra o périplo do autor, em seus 35 anos, pelos três mundos supra-físicos: Inferno, Purgatório e Paraíso, situando neste último o lugar do surgimento de uma iluminada consciência.

Já o poeta inglês William Blake (1757-1827) julgava sua Obra fosse fruto de uma revelação, e se dizia tomado por uma clareza divina que o forçava a escrever sem questionar o que lhe vinha à mente. Blake “canalizava” seus poemas, podemos assim dizer. Seus preciosos versos de Augúrios da Inocência, publicados aos 46 anos, bem expressam seu estado anímico de “participação mística”: To see a world in a grain of sand, and a heaven in a wild flower; hold infinite in the palm of your hand and eternity in an hour. (Ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre; capturar o infinito na palma da mão e a eternidade numa hora).

Ainda no amplo universo dos poetas iluminados, cumpre citar o brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja obra poética, distante do que diz a crítica acadêmica (esta certamente não iluminada), acha-se repleta de sonetos que bem revelam as experiências metafísicas que Augusto sofreu precocemente em sua vida profundamente introspectiva. Solilóquio de um Visionário (1909) e O Lamento das Cousas (1914), são apenas dois exemplos que claramente traduzem a especialíssima condição daqueles que souberam enxergar muito além dos olhos comuns.

Carl G. Jung, nascido em 1875, deixa-nos também vários relatos de sonhos e experiências transcendentais, emergentes de suas intensas crises existenciais, vivenciadas em seus anos de maturidade anímica (de 1918 a 1926, principalmente), em função das quais desenvolveu toda a sua Psicologia Analítica. Um de seus testemunhos mais claros de conexão cósmica, entretanto, ocorreu-lhe em 1944, quando se encontrava hospitalizado em virtude de um ataque cardíaco, num período em que esteve inconsciente, tomado por delírios e visões. Jung narra: Parecia-me estar muito alto no espaço cósmico. Muito ao longe, abaixo de mim, eu via o globo terrestre banhado por uma maravilhosa luz azul…; a enfermeira prestar-lhe-ia seu claro testemunho após Jung recobrar a consciência: “O sr. estava como que envolvido por um halo luminoso.” Em sua sábia humildade de alquimista da alma, porém, o imortal psiquiatra suíço preferiu manter aberta a porta pela qual encontrou a transcendência, partindo desse mundo em 1961 sem jamais assumir em sua vida ter encontrado a chave da experiência psicológica de Deus.  

Outro que nos conta sua experiência de iluminação pessoal é o físico austríaco Fritjof Capra. Uma visão de natureza psicodélica ocorreu-lhe numa praia, numa tarde de verão, em 1969, aos 30 anos de idade: ”vi” cascatas de energia cósmica, provenientes do espaço exterior, cascatas nas quais, em pulsações rítmicas, partículas eram criadas e destruídas. “Vi” os átomos dos elementos, bem como os pertencentes a meu próprio corpo, participando de uma dança cósmica de energia. Senti seu ritmo e ouvi seu som. Nesse momento compreendi que se tratava da dança de Shiva.” Capra confessa que a partir daí se decidiu por escrever O Tao da Física, publicado em 1975, no qual expõe agudas aproximações entre os revolucionários conceitos da física quântica e as verdades metafísicas encontradas no hinduísmo, no taoísmo e no budismo, ainda concordantes com a filosofia pré-socrática.

Mas nosso texto restaria incompleto se não sugeríssemos ao leitor sensível, que se deixou entusiasmar com as experiências destes grandes luminares, algumas formas de percepção dos muitos caminhos capazes de nos levar ao portal da conexão cósmica. Importante dizer: embora os episódios de iluminação preferencialmente ocorram no período outonal de nossas vidas, quando a alma amadurecida já pôde colher frutos fundamentais não só de suas mais sofridas crises psicológicas, mas também das situações mais simples, cotidianamente vividas, nem por isso devemos esperar tardiamente pela transcendência ou mesmo crer que ela se dará de algum modo, inevitavelmente.

A meia-idade, por si só, não é garantia alguma para que a alma se perceba essencialmente. Quando preferimos ignorar ao longo dos anos (desde a infância e juventude) as oportunidades de real aprendizado que a vida nos oferece e nos furtamos à obrigação de descobrir por qual caminho deve seguir nosso coração, ficamos sujeitos mais adiante a percorrer as planícies da velhice como se estas fossem campos desertos, cristalizados em torno de um ego estéril e taciturno, que jamais soube vislumbrar a realidade espiritual acima da simples consciência.

Também não devemos esperar que uma vivência mística surja acompanhada do som de clarins ou de luzes extraordinárias; no mais das vezes a iluminação da alma ocorre por meio de vivências extremamente simples e discretas, que trazem significado tão somente àquele que a sofre no espaço mais profundo e sagrado de si mesmo. Por isso é fundamental cultivar o silêncio, sem o que não há como escutar os anseios de nosso verdadeiro Eu.

É preciso ainda coragem e humildade para que trilhemos a senda iniciática em que se traduz nossa existência; somente com o auxílio destas duas virtudes é que podemos vencer as armadilhas do ego e nos manter abertos ao aprendizado das lições.

Ademais, iluminação alguma deveria ser o propósito da vida, senão um meio de ascese espiritual. Ela nunca é um fim em si mesma. Lembremos o aforismo zen: certa feita um discípulo correu ao mestre dizendo orgulhosamente que após dez anos de meditação havia finalmente alcançado o Satori (iluminação); ao que o mestre respondeu-lhe: “Então continue meditando.” A passagem nos ensina que os passos da alma não têm ponto de chegada. Só o percurso pode ser essencialmente o caminho; nada o substitui, e a iluminação é mais uma questão de saber admirar a paisagem do que a de atingir algum destino. 

 O despertar da alma é um mistério que envolve sutilezas; perfume e beleza costumam ser prelúdio da iluminação psíquica, e nossa consciência será tanto mais tocada pelos dedos de Deus quanto mais soubemos aspirar sem ambições pelo belo e pela verdade em cada mínima intenção. Inspiremo-nos, pois, naqueles que já trilharam os caminhos da virtude e fizeram questão de perfumá-lo com o seu desabrochar anímico. A iluminação advém quando a alma, qual cadinho dos alquimistas, está devidamente preparada para sofrer a transmutação psíquica. Busquemos com paciência e oração por ela a todo instante, e o alvorecer de um divinal outono nos surpreenderá um certo dia.

Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento.

Revista Planeta, edição nº 379

 

Category : ARTE, SENSIBILIDADE, SENTIMENTOS, EMOÇÕES Print

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