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 POR DENTRO DO CÉREBRO (entrevista)

17/11/2009

 

 Entrevista com o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho

 

          O neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho conta os avanços nos tratamentos
de doenças como o mal de Parkinson e como evitar aneurisma e perda de memória.

          E projeta, ainda, o futuro próximo, quando boa parte do sistema
neurológico estará sob controle do homem.

          Chegar à casa do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, no alto da
Gávea, no Rio de Janeiro, é uma emoção. A começar pela vista deslumbrante da
cidade, passando pelos macacos que passeiam pelos galhos até avistar as
orquídeas que caem em pencas das árvores, colorindo todo o jardim.

           Cada uma dessas flores foi presente de um paciente do médico, que sua
mulher, Isabel, replantou na parte externa da casa.

          Ou seja: a competência desse médico, com 33 anos de profissão, que
dedica sua vida à medicina com a paixão de um garoto, pode ser contada em
flores.    E são muitas.

          Filho do lendário neurocirurgião Paulo Niemeyer, pioneiro da
microneurocirurgia no Brasil, e sobrinho do arquiteto Oscar Niemeyer, Paulo
escolheu a medicina ainda adolescente.

          Aos 17 anos, entrou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

          Quinze dias depois de formado, com 23 anos, mudou-se para a
Inglaterra, onde foi estudar neurologia na Universidade de Londres.

          De volta ao Brasil, fez doutorado na Escola Paulista de Medicina.

          Ao todo, sua formação levou 20 anos de empenho absoluto. Mas a
recompensa foi à altura. Apaixonado por seu ofício, Paulo chefia hoje os
serviços de neurocirurgia da Santa Casa do Rio de Janeiro e da Clínica São
Vicente, onde atende e opera de segunda a sábado, quando não há uma emergência
no domingo, e ainda encontra tempo para dar aulas no curso de pós-graduação em
neurocirurgia da PUC-Rio.

          Por suas mãos já passaram o músico Herbert Vianna - de quem cuidou em
2001, depois do acidente de ultraleve em Mangaratiba, litoral do Rio -, o ator
e diretor Paulo José, a atriz Malu Mader e, mais recentemente, o diretor de
televisão Estevão Ciavatta - marido da atriz Regina Casé que, depois de um
tombo do cavalo, recupera-se plenamente -, além de centenas de outros
pacientes, muitos deles representados pelas belas flores que enchem de vida o
seu jardim.

          PODER: Seu pai também era neurocirurgião. Ele o influenciou?

          PAULO NIEMEYER: Certamente. Acho que queria ser igual a ele, que era o
meu ídolo.

          PODER: Seu pai trabalhou até os 90 anos. A idade não é um complicador
para um neurocirurgião? Ela não tira a destreza das mãos, numa área em que isso
é crucial?

          PN: A neurocirurgia é muito mais estratégia do que habilidade manual.
Cada caso tem um planejamento específico e isso já é a metade do resultado.
Você tem de ser um estrategista..

          PODER: O que é essa inovação tecnológica que as pessoas estão chamando
de marcapasso do cérebro?

          PN: Tem uma área nova na neurocirurgia chamada neuromodulação, o que
popularmente se chama de marcapasso, mas que nós chamamos de estimulação
cerebral profunda. O estimulador fica embaixo da pele e são colocados eletrodos
no cérebro, para estimular ou inibir o funcionamento de alguma área. Isso
começou a ser utilizado para os pacientes de Parkinson. Quando a pessoa tem um
tremor que não controla, você bota um eletrodo no ponto que o está provocando,
inibe essa área e o tremor pára. Esse procedimento está sendo ampliado para
outras doenças. Daqui a um ou dois anos, distúrbios alimentares como obesidade
mórbida e anorexia nervosa vão ser tratados com um estimulador cerebral.Porque
não são doenças do estômago, e sim da cabeça.

          PODER: O que se conhece do cérebro humano?

          PN: Hoje você tem os exames de ressonância magnética, em que consegue
ver a ativação das áreas cerebrais, e cada vez mais o cérebro vem sendo
desvendado.

          Ainda há muito o que descobrir, mas com essas técnicas de estimulação
você vai entendendo cada vez mais o funcionamento dessas áreas. O que ainda é
um mistério é o psiquismo, que é muito mais complexo. Por que um clone jamais
será igual ao original?

          Geneticamente será a mesma coisa, mas o comportamento depende muito da
influência do meio e de outras causas que a gente nunca vai desvendar
totalmente.

          PODER: Existe uma discussão entre psicanalistas e psiquiatras, na qual
os primeiros apostam na melhora por meio da investigação da subjetividade, e os
últimos acreditam que boa parte dos problemas psíquicos se resolve com
remédios. Qual é sua opinião?

          PN: Há casos de depressão que são causados por tumores cerebrais: você
opera e o doente fica bem. Há casos de depressão que são causados por
deficiência química: você repõe a química que está faltando e a pessoa fica
bem. Numa época em que se fazia psicocirurgia existiam doentes que ficavam
trancados num quarto escuro e quando faziam a cirurgia se livravam da depressão
e nunca mais tomavam remédio. E há os casos que são puramente psíquicos,
emocionais, que não têm nenhuma indicação de tomar remédio.

          PODER: Já existe alguma evolução na neurologia por causa das
células-tronco?

          PN: Muito pouco. O que acontece com as células-tronco é que você não
sabe ainda como controlar. Por exemplo: o paciente tem um déficit motor, uma
paralisia, então você injeta lá uma célula-tronco, mas não consegue ter certeza
de que ela vai se transformar numa célula que faz o movimento. Ela pode se
transformar em outra coisa, você não tem o controle, ainda.

          PODER: Existe alguma coisa que se possa fazer para o cérebro funcionar
melhor?

          PN: Você tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a
vida, fazer exercício. Se está deprimido, com a autoestima baixa, a primeira
coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória
são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor,
você tem de ter motivação. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa,
ter prazer no que está fazendo e ter a autoestima no ponto.

          PODER: Cabeça tem a ver com alma?

          PN: Eu acho que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte
cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma.. Isso não dá para
explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo.

          PODER: O que se pode fazer para se prevenir de doenças neurológicas?

          PN: Todo adulto deve incluir no check-up uma investigação cerebral.

          Vou dar um exemplo: os aneurismas cerebrais têm uma mortalidade de 50%
quando rompem, não importa o tratamento. Dos 50% que não morrem, 30% vão ter uma
sequela grave: ficar sem falar ou ter uma paralisia. Só 20% ficam bem. Agora, se
você encontra o aneurisma num checkup, antes dele sangrar, tem o risco do
tratamento, que é de 2%, 3%. É uma doença muito grave, que pode ser prevenida
com um check-up.

          PODER: Você acha que a vida moderna atrapalha?

          PN: Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média
era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser
tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor.
Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.

          PODER: Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro?

          PN: O exagero. Na bebida, nas drogas, na comida. O cérebro tem de ser
bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra. É muito difícil um
cérebro muito bem num corpo muito maltratado, e vice-versa.

          PODER: Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia?

          PN: Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas
acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral,
cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter, colocação de
partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula, com partículas
que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente. Daqui
a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.

          PODER: Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer?

          PN: Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As
pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a
decadência da velhice. Se você puder ir bem de saúde, de aspecto, até o dia da
morte, será uma maravilha, não é?

          PODER: Você não vê contraindicações na manipulação dos processos
naturais da vida?

          PN: O que é perigoso nesse progresso todo é que, assim como vai criar
novas soluções, ele também trará novos problemas. Com a genética, por exemplo,
você vai fazer um exame de sangue e o resultado vai dizer que você tem 70% de
chance de ter um câncer de mama. Mas 70% não querem dizer que você vai ter, até
porque aquilo é uma tendência. Desenvolver depende do meio em que você vive, se
fuma, de muitos outros fatores que interferem. Isso vai criar um certo pânico.
E, além do mais, pode criar problemas, como a companhia de seguros exigir um
exame genético para saber as suas tendências. Nós vamos ter problemas daqui
para frente que serão éticos, morais, comportamentais, relacionados a esse
conhecimento que vem por aí, e eu acho que vai ser um período muito rico de
debates.

          PODER: Você acredita que na hora em que as pessoas puderem decidir
geneticamente a sua hereditariedade e todo mundo tiver filhos fortes e lindos,
os valores da sociedade vão se inverter e, em vez do belo, as qualidades serão
se a pessoa é inteligente, se é culta, o que pensa?

          PN: Mas aí você vai poder escolher isso também. Esse vai ser o
problema: todo mundo vai ser inteligente. Isso vai tirar um pouco do romantismo
e da graça da vida. Pelo menos diante do que a gente está acostumado. Acho que a
vida vai ficar um pouco dura demais, sob certos aspectos. Mas, por outro lado,
vai trazer curas e conforto.

          PODER: Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente
diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas?

          PN: O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às
necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas
eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele
tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do
mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.

          PODER: Paciente famoso dá mais trabalho?

          PN: A revista New England Journal of Medicine publicou um artigo sobre
as complicações do tratamento vip, mostrando que o perigoso nesse tipo de
tratamento é que você muda a sua rotina. Eles deram o exemplo do papa João
Paulo 2º e do ex-presidente norte-americano Ronald Regan, que levaram tiros. E
mostraram momentos em que eles quase morreram porque, quando chega um doente
desses, o hospital para, todo mundo quer ver e ajudar, a sala de cirurgia fica
lotada, o cirurgião deixa de fazer um exame que devia ser feito porque pode
doer... O doente vip acaba influindo nas decisões médicas pela importância que
tem, e isso pode complicar o tratamento. Ele tem de ser tratado igualzinho ao
doente comum, para poder dar certo.

          PODER: Já aconteceu de você recomendar um procedimento e a pessoa não
querer fazer?

          PN: A gente recomenda, mas nunca pode forçar. Uma coisa é a ciência, e
outra é a medicina. A pessoa, para se sentir viva, tem de ter um mínimo de
qualidade. Estar vivo não é só estar respirando. A vida é um conjunto. Há
doentes que preferem abreviar a vida em função de ter uma qualidade melhor. De
que adianta ficar ali, só para dizer que está vivo, se o sujeito perde todas as
suas referências, suas riquezas emocionais, psíquicas.

          É muito difícil, a gente tem de respeitar muito.

          PODER: Como é o seu dia-a-dia?

          PN: Eu opero de segunda a sábado de manhã, e de tarde atendo no
consultório. Na Santa Casa, que é o meu xodó, nós temos 50 leitos, só para
pessoas pobres. Eu opero lá duas vezes por semana. E, nos outros dias, na
Clínica São Vicente. O que a gente mais opera são os aneurismas cerebrais e os
tumores. Então, é adrenalina todo dia. Sem ela a gente desanima e o cérebro
funciona mal. (risos)

          PODER: Você é workaholic?

          PN: Não é que eu trabalhe muito, a minha vida é aquilo. Quando viajo,
fico entediado. Depois de alguns dias, quero voltar. Você perde a sua
referência, está acostumado com aquela pressão, aquele elástico esticado.

          PODER: Como você lida com a impotência quando não consegue salvar um
paciente?

          PN: É evidente que depois de alguns anos, a gente aprende a se
defender. Mas perder um doente faz mal a um cirurgião. Se acontece, eu paro com
o grupo para discutir o que se passou, o que poderia ter sido melhor, onde foi a
dificuldade. Não é uma coisa pela qual a gente passe batido. Se o cirurgião acha
banal perder um paciente é porque alguma coisa não está bem com ele mesmo.

          PODER: Como você lida com as famílias dos seus pacientes?

          PN: Essa relação é muito importante. As famílias vão dar

          tranquilidade e confiança para fazer o que deve ser feito. Não basta o
doente confiar no médico. O médico também tem de confiar no doente. E na
família. Se é uma família que cria caso, que é brigada entre si, dividida, o
cirurgião já não tem a mesma segurança de fazer o que deve ser feito. Muitas
vezes o doente não tem como opinar, está anestesiado e no meio de uma cirurgia
você encontra uma situação inesperada e tem de decidir por ele. Se tem certeza
de que ele está fechado com você, a decisão é fácil. Mas se o doente é uma
pessoa em quem você não confia, você fica inseguro de tomar certas decisões. É
uma relação bilateral, como num casamento. Um doente que você opera é uma
relação para o resto da vida.n

          PODER: Você acredita em Deus?

          PN: Não raramente, depois de dez horas de cirurgia, aquele estresse,
aquela adrenalina toda, quando você acaba de operar, vai até a família e diz:
"Ele está salvo". Aí, a família olha pra você e diz: "Graças a Deus!". Então, a
gente acredita que não fomos apenas nós.

          PODER: Como você relaxa?

          PN: Estudando. A coisa que mais gosto de fazer é ler. Sábado e
domingo, depois do almoço, gosto de sentar e ler, ficar sozinho em silêncio
absoluto.

          PODER: E o que gosta de ler?

          PN: Sobre medicina ou história. Agora estou lendo um livro antigo,
chamado Bandeirantes e Pioneiros, do Vianna Moog, no qual ele compara a
colonização dos Estados Unidos com a do Brasil. E discute por que os Estados
Unidos, com 100 anos a menos que o Brasil, tiveram um enriquecimento e um
progresso tão rápidos. Por que um país se desenvolveu em progressão geométrica
e o outro em progressão aritmética.

 

Category : CIÊNCIA, TECNOLOGIA, ESPIRITUALIDADE Print

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