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 PASSOS PARA UM MUNDO MELHOR - Danah Zohar

12/9/2009

 

 

Passos para um mundo melhor

 

Coeficiente de inteligência espiritual é o que nos faz reconhecer o

impacto de cada uma de nossas ações no mundo e nos sentir parte de um

todo interconectado, é o que diz a física e filósofa americana Danah Zohar

 

A americana Danah Zohar, física e filósofa pelo MIT – Instituto de

Tecnologia de Massachussets e pós-graduada em estudos sobre religião

em Harvard, acredita que ninguém, sozinho, será capaz de salvar a

humanidade, mas a mudança precisa começar em cada indivíduo de modo

que, juntos, ainda possamos criar um mundo diferente. Citando o

psicanalista Carl Gustav Jung, ela diz que “se há algo errado com o

mundo, é porque algo está errado comigo. Se eu quero endireitar o

mundo, preciso endireitar a mim mesmo”.

 

A solução para tudo o que consideramos errado no mundo, nem sempre

será encontrada pelas vias da lógica e do racionalismo. Para a

pesquisadora, além de nosso QI – Coeficiente de Inteligência, será

fundamental desenvolvermos também um QE – Coeficiente de Inteligência

Emocional e mesmo um QS – Coeficiente de Inteligência Espiritual que,

ela adianta, não tem nada a ver com religião.

 

Segundo Danah, é por meio desse tipo de inteligência que enxergamos um

sentido para a vida e nos damos conta de que o que pensamos, sentimos

e somos interfere diretamente sobre o todo. Ela diz que, de acordo com

pesquisas recentes, 94% dos seres humanos ainda agem com base em

motivações negativas de medo, raiva e egoísmo, mas defende que já é

tempo de mudarmos de paradigma e sermos motivados pela cooperação e

pelo bem do planeta.

 

Para isso, ela enumera 12 princípios que nos ajudariam a assumir uma

postura mais responsável diante da própria vida e a encontrar mais

sentido para a existência humana.

 

1. Uso positivo das adversidades: em vez de assumir uma posição de

vítima, devemos aproveitar os momentos de crise para nos fortalecer e

pensar em novas soluções;

2. Consciência de si mesmo: saber quem somos, quais são nossos valores

mais profundos, perceber o que nos motiva a viver e pelo que seríamos

capazes de morrer é uma das maneiras de ir além do ego e fazer a

diferença no mundo;

3. Humildade: deixarmos de ser a espécie mais arrogante do planeta e

entender que somos parte de um mundo bem maior, com bilhões de

respeitáveis pontos de vista;

4. Compaixão: sentir a dor e a alegria do outro como se fosse nossa e

perceber que fazemos parte do todo;

5. Visão e valor: transcender o egoísmo e desenvolver a capacidade de

servir aos outros, assumindo um compromisso de fidelidade e excelência

com as relações, o trabalho e o planeta;

6. Espontaneidade: viver o momento presente, encarando cada problema

ou questão como nova;

7. Holismo: entender que no mundo não há separação entre os indivíduos

e a natureza e a maneira como um indivíduo vive afeta o todo;

8. Fazer perguntas fundamentais e profundas: questionar-se é criar

oportunidades para agir de modo diferente, adquirir mais consciência e

sair do sistema;

9. Reformulação de paradigmas: mudar modelos mentais e a visão que

temos de nós mesmos, da vida, dos negócios, da educação etc.;

10. Habilidade para ir contra a corrente: seguir os próprios

princípios sem medo de ser diferente;

11. Celebrar a diversidade: perceber os benefícios da diferença e a

oportunidade de aprender com o outro e

12. Senso de vocação: sentir que há um propósito na vida e que cada um

pode fazer a sua parte naquilo que tem de melhor.

 

O Planeta Sustentável conversou com a pesquisadora durante o II Fórum

Internacional de Comunicação e Sustentabilidade para entender melhor

alguns desses pontos.

 

Muita gente tem associado a crise financeira a uma oportunidade de

transformação geral para o planeta. Na sua opinião, o que podemos

aprender com esse momento?

 

- Se não há crise, não paramos para pensar, não fazemos grandes

perguntas e vivemos superficialmente de momento em momento. Quando

acontece uma crise, levamos as coisas mais a sério, pensamos sobre as

questões que afligem as pessoas e nos perguntamos: Eis, o que está

acontecendo aqui? O que estou fazendo de errado? O que meus amigos

estão fazendo de errado? O que podemos fazer para que o mundo fique

melhor?

 

Você valoriza o exercício de fazer perguntas profundas. Qual é a

importância desses questionamentos?

 

- Quem quer viver uma boa vida deve fazer perguntas profundas. É

necessário se perguntar: Para que eu nasci? Por que eu tenho uma vida?

O que eu preciso fazer aqui? Isso faz com que a gente leve a vida mais

a sério. Normalmente, as pessoas se perdem a cada minuto pensando: “O

que eu vou comprar para me sentir bem?” ou “O que eu vou fazer agora

para me sentir melhor?”. Elas pensam apenas no momento presente, mas

se fizerem perguntas profundas sobre a razão de suas vidas, se

tornarão seres mais responsáveis.

 

Essa atitude questionadora está relacionada a uma Inteligência

Espiritual? Explique melhor seu conceito de “QS”.

 

- Inteligência Espiritual é a maneira como dou sentido à vida, acessos

meus valores e propósitos. É minha inteligência moral, minha

consciência, minha preocupação com as questões sociais. Por meio dela,

questionamos quem somos, criamos e quebramos paradigmas, ficamos mais

comprometidos e encontramos novas soluções que permitam ao mundo ser

diferente e melhor.

 

Mas, atualmente, os seres humanos ainda valorizam mais o raciocínio

lógico, medido pelo QI.

Há uma preferência maior pelo uso do QI, sim. Mas eu acho que cada vez

mais pessoas têm ficado conscientes de que precisam trazer seus

valores à tona e verificar o que realmente é importante para elas.

Essa já é uma prática comum entre os jovens, que querem que o emprego

ou a atividade que exerçam tenha um significado maior para eles. E a

preocupação também está crescendo no círculo dos negócios, porque eles

estão percebendo que as pessoas ficam mais tempo nos empregos que

fazem sentido para elas.

 

Essa transformação que o mundo anseia acontece a partir de cada indivíduo?

 

- São os indivíduos que fazem as coisas acontecer e afetam a sociedade.

Sozinha, eu não posso barrar o aquecimento global, mas se eu me juntar

às pessoas nas ruas, usar a internet e fazer pressão sobre os

políticos, posso gerar uma transformação. Deixe o mundo saber o que

você quer mudar e acredite que pode fazer a diferença, e uma revolução

pode acontecer.

 

Isso tem a ver com o que a Mecânica Quântica chama de realidade holográfica?

 

- A mecânica quântica está relacionada com a ideia de um universo

holográfico porque não existe separação, tudo está interconectado, é

parte do todo. Tudo o que eu faço, sinto e penso influencia o modo

como os outros agem, sentem e pensam, então minhas ações têm uma

espécie de responsabilidade global.

 

Daí a importância de seguirmos nossa vocação e respeitarmos a

diversidade, dois dos princípios que você sugere...

Vocação é ser chamado a fazer algo. Quando alguém percebe que nasceu

com um determinado propósito, sente que tem algo sério a fazer com sua

vida, que pode transformar o mundo em um lugar melhor do que era

quando nasceu. Quando agimos por uma vocação, nossa satisfação vai

além de uma sensação momentânea. E também devemos reconhecer que há

muitas vocações e pontos de vista nesse mundo e todos são valiosos.

Essa é a celebração da diversidade.

 

Você diz que os seres humanos precisam agir por motivações positivas e

não pelas negativas, como costumam fazer atualmente. Qual é a

diferença, na prática?

 

- Somos movidos a medo, raiva ou desejo de autoafirmação. Se agimos por

motivações negativas, só geraremos resultados negativos, sem

conquistar nada de novo, apenas reagiremos. Se possuímos objetivos

diferentes, teremos resultados diferentes. Precisamos começar a agir

em nome de um propósito maior, de um pensamento a longo prazo. Está na

hora de sair de um modelo mental ‘eu, meu e para mim’ para um ‘nós,

nosso e para nós’. Devemos nos ver como os guardiões do futuro e

manter o planeta a salvo para nossos filhos e netos. Deveríamos viver

nos perguntando: Como eu posso servir? Não apenas a mim, mas à minha

comunidade, minha nação, meu planeta.

 

Ainda é possível reverter o quadro caótico instalado no mundo?

 

- Se começarmos a agir melhor agora, claro que podemos salvar o mundo.

Mas isso requer esforços coletivos, muitos indivíduos trabalhando

juntos e, principalmente, fazendo com que os líderes percebam o que as

pessoas querem. Em países democráticos, os governantes só pensam em

ganhar votos, se eles acham que o que as pessoas querem é dinheiro,

tomarão decisões irresponsáveis e a curto prazo. Mas se eles se dão

conta de que as pessoas desejam um bom planeta para deixar para as

próximas gerações, então vão agir de modo diferente. Na democracia,

temos os políticos que merecemos.

 

 

Category : CONSCIÊNCIA SOCIAL E AMBIENTAL Print

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