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 A MORTE, UM AMANHECER - André Louro

16/5/2010



Vamos tentar tocar de leve o véu que constantemente se mantém à nossa frente em relação à morte.
Vamos aprofundar a questão da morte tal como ela é apreendida subjetivamente por nós, enquanto vivos, a forma como a morte é concebida pela nossa atual cultura e em que grau é que a relação que temos com a morte não é, em grande parte, um condicionamento cultural.

 

O 1º nível é uma observação genérica sobre as concepções da morte em termos individuais e coletivos.

O 2º nível irá concentrar-se no mecanismo da morte em termos ocultos, isto é, naquilo que foi possível reunir pelos observadores mais atentos e pelos intuitivos ao longo dos séculos, bem como o que tem sido transmitido de dimensões superiores da vida para o consciente da humanidade sobre este assunto. Vamos trabalhar neste 2º nível aspectos sobre a morte, mais exactamente a sequência de etapas que o nosso ser vive naquilo a que culturalmente se chama morte.

O 3º nível foca a morte consciente, a educação do homem para a morte consciente, a vivência de todas as etapas comuns do processo de desligamento da consciência em relação à natureza que ela utiliza para se exprimir nesta dimensão, mas sobretudo a cooperação consciente do indivíduo no momento em que ele abandona esta dimensão.

 

A morte consciente será, no futuro, um assunto comum e cedo ou tarde começarão a surgir facilitadores do trânsito entre dimensões. É outro tipo de terapeuta, é um ser que acompanha o irmão que supera esta dimensão e está ao lado dele e que tem uma percepção profunda, tanto quanto possível, das etapas de desenlace da vida compactada que se exprimia naquele corpo de retorno à sua origem.

 

A formação destes facilitadores de morte consciente, no futuro, serão tão comuns quanto os facilitadores do processo inverso (médicos, parteiras) que assistem à entrada de um ser na nossa dimensão.

Um dos grandes hiatos da nossa compreensão das portas entre as dimensões – e é um aspecto que revela bem onde a nossa civilização tem dificuldade de penetrar – é que nós não temos o equivalente à parteira no momento da morte, mas estes seres vão entrar em formação em breve: devido à natureza intensa com que a história está a alcançar o seu clímax; devido à forma como as forças de convexão da história estão a levar as pessoas a fazer grandes sínteses culturais; devido à intensidade com que as disciplinas estão a ser levadas a se casar sob a pressão da própria síntese descendente, a forma como esta síntese está a transpirar à superfície dos acontecimentos humanos impondo, facilitando as mãos a darem-se, os corações a se unirem, os olhares a se encontrarem e no plano acadêmico, as disciplinas a explorarem mais os espaços interdisciplinares de forma a que uma percepção luminosa do conhecimento possa vir ao de cima.

 

À medida que o poder de unir atua nos níveis profundos do universo, esse poder de tornar coeso, de fundir no amor a realidade planetária, à medida que esse poder emerge e a Terra definitivamente entra na sua fase alquímica mais evidente, os facilitadores do desencarne, os seres que desenvolverão a capacidade de irradiar o tipo de energia, de magnetismo e de doçura, à medida que se formam e ocupam os seus postos, vamos ter uma nova função na humanidade. Esta função é belíssima porque ela contém a antítese da angústia que a maior parte de nós associa à ideia de abandonar esta dimensão.

 

Uma morte inconsciente tende a produzir um nascimento inconsciente e uma morte profundamente consciente tende a produzir um renascimento profundamente consciente também. Quanto mais lúcido é o estado do ser no momento em que ele é aspirado para as dimensões superiores, menos material intermediário (astral, mental) é associado ao seu campo vibratório, e no percurso descendente mais direta é a relação entre a sua luz essencial, o seu centro de vida, de energia pura e a forma que ele está criando como suporte para se manifestar nesta dimensão.

 

A relação que uma civilização tem com a  morte diz muito do estado dessa civilização. Quanto mais avançada, transparente, serena, amplificada for a relação que o consciente coletivo de uma civilização tem com esse momento de clivagem na nossa consciência, quanto mais profunda, limpa, serena, integrada for a relação que a cultura tem com a morte, mais se percebe o quanto da verdadeira vida se exprime através dessa civilização, e usar essa civilização como um instrumento de revelação.

 

Civilizações são instrumentos utilizados pela vida tal como os nossos corpos físicos são veículos de ascensão coletiva. Uma civilização é sempre um sistema tractor da consciência coletiva. Quanto mais permeável à luz que emana do centro do cosmos for uma civilização, mais ela irradia luz, clareza, limpeza, percepção clara sobre a morte.

 

Quanto mais ampla é a visão da vida que uma civilização tem, mais tranquila, mais competente, mais sublime é a percepção que essa civilização fornece no momento de desencarnar. Há aqui uma relação extremamente íntima entre a compreensão que uma cultura tem da vida e a leitura do mundo que essa civilização faz e a forma como ela se relaciona com o mundo. Quanto mais profundo, penetrante e vasto é o olhar daquele que conhece o mundo e da civilização em que ele se insere, mais sublime é a concepção da morte e esta curva é um pouco invariável, é diretamente proporcional. Quanto mais bela é a concepção da vida mais bela é a concepção da morte.

 

Se observarmos a forma como os tuaregues, os lapões, os esquimós, os índios das Américas do Norte e do Sul vivem, quase que se intui a forma como eles morrem. Existe uma passagem sem descontinuidade em termos de consciência entre a forma como esses seres vivem e a forma como eles se deixam aspirar para as dimensões superiores. São aquelas culturas que mantêm vivo um fio de tradição. Tradição entendida no sentido ortodoxo de conexão com o princípio nutriente, vital, como algo que foi recebido na fundação daquela civilização e que foi respeitado ao longo dos ciclos de desenvolvimento e amadurecimento dessa civilização.

 

Tradição no sentido ortodoxo é o respeito por uma semente, por um conjunto de fatos ocultos que foi colocado no berço da civilização.Todos estes povos têm uma forma de compreender o Universo que não entra em fricção com a forma com que eles se deixam levar para as dimensões superiores de vida. Para os índios Hopi, por exemplo, a concepção de aqui inclui tudo o que eles vêem no horizonte num ângulo de 360º e a concepção de agora vai desde o bisavô ao bisneto.

 

Para um europeu contemporâneo aqui significa o bairro dele e agora significa um período de 45 minutos aproximadamente. Para um norte americano aqui é o quarto onde ele está e agora são aqueles 5 minutos. Isto significa que o foco da consciência foi perdendo raio, foi-se fechando e as pessoas ficaram extremamente eficazes em extensões de espaço e de tempo muitíssimo curtas. A eficácia não se discute, o pragmatismo está lá. Este europeu e este americano são extremamente eficazes no aqui e agora a que se propõem mas se alguém for assassinado na rua, do ponto de vista do americano não foi no aqui dele, ou seja, a consciência dele, que avança por segmentos, não inclui o que está fora dessa concepção de aqui e agora, houve uma miopia da consciência.

 

Enquanto que nos povos tradicionais a concepção de aqui e agora é vasta, articulada e sempre dependente de uma concepção pelo menos mística e mágica da realidade, atualmente, no homem contemporâneo a nossa concepção de aqui e agora mirrou até ficar do tamanho de um alfinete, ele vive como se não fosse morrer porque o agora dele são aqueles 5 minutos.

 

Há aqui uma equação da consciência que os sistemas directores da nossa civilização deixaram escapar e isso é a capacidade de expandir o aqui e agora para além do momento que ele vive, tanto para o passado como para o futuro. Isto significa que um ser que vive no estado amplificado de consciência, como os esquimós por exemplo, ou os índios dos planaltos centrais da Colômbia, quando um ser vive neste estado amplificado de consciência, ele sempre actua consciente de que a morte está presente, entrelaçada, conectada com o processo de vida. Isto significa que os actos dele são saturados de uma reverência e compreensão da fragilidade de estar nesta dimensão.

 

É interessante observar que ainda há alguns anos atrás morria-se em casa e o corpo não era imediatamente escondido. Mesmo no ocidente a família participava do processo de levar o corpo do sítio de onde ele tinha sido desativado para o sítio onde ele iria ser entregue aos reservatórios de matéria planetários (cemitério). Havia uma relação mais quente com o processo de morte, da mesma forma que se nascia em casa, morria-se em casa.

Os jovens, as crianças, tinham uma assimilação direta do fato morte.

 

80% das pessoas são tracionadas para as dimensões superiores em instituições de saúde, asilos e casas de repouso. Surgiram estes “especialistas” em tratar de cadáveres de forma que a família não tenha que se ocupar daquele aspeto, então nós pagamos para sermos colocados a uma distância confortável deste fato absolutamente essencial que é o cadáver. Nós evitamos a assimilação telepática e a proximidade com o ser que está superando esta dimensão. A forma como os mass-média tratam a morte contribui para isto.

 

A morte geralmente é apresentada como um episódio violento, isto é, a morte natural ninguém sabe muito bem o que é, tirando, obviamente, técnicos de saúde e pessoas que já têm intimidade com esse  processo. Este vácuo que existe entre o consciente da humanidade e a morte (presença de um cadáver) esta distância é equivalente à distância que nós temos em relação à nossa própria essência. A nossa incapacidade de ficar serenos, em compaixão perante a morte, da nossa própria dificuldade de comunicação conosco mesmos em níveis profundos. Há uma incomunicação interna essencial entre o eu consciente e os seus níveis psíquicos, a parte da alma que se liga a esta dimensão, há uma ruptura dos canais, e no momento em que a lei cósmica nos mostra claramente o que é forma e o que é conteúdo, nós não somos capazes de separar, porque não temos o hábito de ir ao encontro do nosso próprio conteúdo, vivemos no nível da forma e então, naquele momento, aquele corpo é tudo o que restou da pessoa que desencarnou.

 

Uma vasta parte do nosso córtex está envenenado com a ideia de morte. Nós construímos a nossa arquitetura de micro flashes  luminosos que compõem as funções cerebrais e só a ideia de morte é dos pensamentos mais venenosos que o nosso cérebro tem de suportar toda a vida porque ela é, simplesmente, falsa.

 

A forma como a morte é assimilada na nossa cultura, transmitida, cultivada e por mais cosmética espiritual que seja colocada em torno do fato, em termos de compromisso do ser para com aquilo que ele considera real, nós ainda estamos no nível da aparência e, neste sentido, todo o trabalho de formação destes futuros facilitadores da transição entre dimensões começaria primeiro por um compromisso de amor entre a consciência tridimensional e o seu centro irradiante.  A capacidade de casar mundos está na base da eliminação do medo e da morte.

 

Enquanto os mundos são vistos como separados, enquanto o mundo superior, as plataformas de vida espiritual, as grandes paisagens de luz onde as almas se deslocam, livres como pássaros, enquanto esta esfera for vista como separada da esfera do cotidiano, o vácuo criado por esta nossa concepção da realidade é ocupada pelo medo.

Sempre que eu crio um hiato, uma separação, eu criei um território propício a alojar o medo porque o medo alimenta-se de incomunicação e o homem é um agente de comunicação entre os mundos.

 

A nossa atual concepção de morte como o términus de uma entidade biológica, bioquímica, electrolítica – porque do ponto de vista da medicina clássica, é isto, pouco mais – a nossa concepção disto não acaba, é uma herança da completa falta de amor com que o homem tem vivido para consigo mesmo. A nossa atual concepção de morte é filha desta ausência de amor que caracteriza a vida na Terra, atualmente (nos últimos 2000 anos? É impossível fazer uma genealogia do ódio, perde-se na noite dos tempos).Para que estes facilitadores da transição se formem, primeiro eles terão que conquistar, dentro deles, o medo em relação à morte.

 

A forma como a morte é transmitida pelos mass-média torna-se algo sem honra, sem rosto, a maior parte das vezes violenta e completamente estatística. A assimilação constante deste mito da comunicação global que é a morte sem rosto e sem honra, a contínua propagação deste mito, vai fazendo com que as pessoas, perigosamente, se habituem à  morte pelo lado oposto. Nas culturas tradicionais a morte é algo totalmente quente, há uma textura humana na morte. O chefe índio diz ao seu filho: “hoje está um bom dia para morrer”, veja-se como isto está nos antípodas da morte tal como ela é apresentada pelos mass-média!

 

Obviamente, o chefe índio pratica a morte consciente. Ao longo da vida, conscientemente, ele aprendeu a sair e a entrar no corpo, aprendeu, de uma forma gradual, a desligar certos centros que permitem a elevação dos seus veículos subtis acima do físico e depois voltou a pousar os veículos subtis no físico porque não estava na altura de ele desencarnar, e este chefe índio, este chefe esquimó, este shaman, este monge ocidental, este sacerdote cristão, católico, todos eles têm esta prática, no fundo, para não falar nos Cátaros que tinham isso bem desenvolvido, praticavam esse processo de elevação acima do corpo e de retorno ao corpo, aquilo a que hoje chamaríamos uma meditação de abstracção, mas que, quando ela é feita tendo consciência de que o mecanismo de certas meditações é rigorosamente idêntico ao mecanismo da morte, então o chefe índio ou o monge, ou o ocultista ocidental que sabe o que faz, no momento em que a sua centelha dá ordem: “este é o momento de irmos embora”, ele simplesmente assiste ao processo de ser traccionado para além do corpo, ele acompanha o processo conscientemente – morte consciente.

 

Esta morte consciente liberta-nos das regiões astral e mental, ela leva-nos diretamente para o nível causal, para o nível intuitivo superior da esfera planetária.

Na morte inconsciente o indivíduo entra no estado intermediário em que ele é bombardeado de influências de mundos que são tão estranhos e confusos para ele, ou mais, do que a sua vida cotidiana – “o bardo” em budismo tibetano. São regiões eminentemente desorientadoras e que poluem o canal.

 

A forma como os mass-média transmitem a experiência da morte transforma-a em algo repugnante porque as pessoas estão morrendo de uma forma repugnante, as pessoas estão transitando de dimensão de uma forma cega. As pessoas não estão tendo reverência, ritual, não estão amando os portais e os mass-média funcionam por injeções de adrenalina que é o que mantém as pessoas frente à televisão.

 

Se uma imagem tem poder de injectar adrenalina no sangue ela tem que ser posta no ar porque isso garante que o espectador está lá. Esta morte divulgada ela é divulgada porque produz adrenalina em nós. É hipnótico ver as pessoas morrer violentamente, as descargas de adrenalina auxiliam o processo de hipnose. A forma como o ritual da morte é colocado pelos mass- média à nossa frente, polui a compreensão do portal, vai fazendo com que o portal se transforme em algo temível e vai alimentando o nosso cérebro reptiliano com todas as memórias genéticas ancestrais em que o homem luta para sobreviver.

(continua)

Category : CIÊNCIA, TECNOLOGIA, ESPIRITUALIDADE Print

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