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 DEFINIÇÃO DE SAUDADE POR UM ANJO...

6/5/2010

     

      *Depoimento de um médico oncologista do Recife.*

       No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar
       crianças, me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e
       tenho ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos
       enternecem e nos surpreendem com suas maneiras simples e diretas
       de ver o mundo, sem meias verdades.

       Nós médicos somos treinados para nos sentirmos "deuses". Só que
       não o somos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim,
       se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona a vencer
       desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais
       além. Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e
       prepotência, o que não é bom. Quando perdemos um paciente,
       voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que
       a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses. Somos
       forçados a reconhecer nossos limites!

       Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde
       dei meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital,
       comecei a freqüentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar
       pela oncopediatria. Mas também comecei a vivenciar os dramas dos
       meus pacientes, particularmente os das crianças, que via como
       vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer. Com o
       nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao
       ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo
       passou por mim.

       Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada,
       porém por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos,
       hospitais, exames, manipulações, injeções e todos os
       desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e
       radioterapia. Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar
       sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo
       em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via
       confiança e determinação. Ela entregava o bracinho à enfermeira
       e com uma lágrima nos olhos dizia: faça tia, é preciso para eu
       ficar boa.

       Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu
       anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir
       uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar
       profunda emoção.

       Meu anjo respondeu:

       - Tio, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondida
       nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com
       muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu
       não nasci para esta vida!

       Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem
       seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes,
       indaguei:

       - E o que a morte representa para você, minha querida?

       - Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na
       cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em
       nossa própria cama não é?

       Lembrei que minhas filhas, na época com 6 e 2 anos, costumavam
       dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.

       - É isso mesmo, e então?

       - Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós
       dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso
       quarto, para nossa cama, não é?

       - É isso mesmo querida, você é muito esperta!

       - Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e
       o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida
       verdadeira!

       Fiquei "entupigaitado". Boquiaberto, não sabia o que dizer.
       Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o
       sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta
       criança, fiquei parado, sem ação.

       - E minha mãe vai ficar com muita saudade minha, emendou ela.

       Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um
       soluço, perguntei ao meu anjo:

       - E o que saudade significa para você, minha querida?

       - Não sabe não, tio? *
Saudade é o amor que fica!*

       Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma
       definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra
       saudade: é o amor que fica! Um anjo passou por mim...

       Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a
       terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente,
       absolutilizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas
       de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta
       que temos, nossa transcendência.
       Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas me deixou uma grande
       lição, vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e
       portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci. Deixou
       uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais
       humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.
       Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda
       estrela a quem chamo "meu anjo, que brilha e resplandece no céu.
       Imagino ser ela, fulgurante em sua nova e eterna casa.

           Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinaste,
       pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudades!

     *O amor que ficou é eterno*.

       Rogério Brandão Médico oncologista clinico RC Recife Boa Vista

   

 

Category : HISTÓRIA, FILOSOFIA, TRADIÇÃO, MITOLOGIA Print

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